quinta-feira, 1 de julho de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


O "cartoon" de Luís Lopes, publicado na revista Sábado, que acima reproduzo, é bem ilustrativo da velha percepção de que dando futebol ao povo, ele se esqueceria da política.
Tal como Karl Marx proclamava a religião como sendo "o ópio do povo", existe a ideia, em boa parte dos nossos políticos, de que "a malta quer é bola" e em lha dando, tudo o resto passará para segundo plano.
Terá sido assim, nos tempos do Estado Novo, quando o povo era obrigado a engolir a doutrina oficial, sem hipótese de escolha, com os mais ousados, em matéria de defesa da democracia, a terem garantido um visitador da PIDE e uma visita guiada aos calabouços, com direito a estadia, em regime de pensão completa.
Nos tempos que correm, democracia é coisa de que não nos podemos queixar, existindo, até, situações em que se poderia dizer que é tanta a democracia, que se corre o risco de que vire bagunça, como se tem visto em muitas das nossas escolas. Mas adiante...
Felizmente que, nos nossos dias, existe total liberdade de expressão e livre acesso à informação, com canais televisivos, jornais e revistas para todos os gostos, já para não falar da Internet, que nos proporciona escolhas intermináveis.
Mas se, para efeitos desta análise, reduzirmos a amostra e nos cingirmos ás escolhas televisivas, em canal aberto, é verdade que, durante o mês de Junho, o futebol teve lugar de destaque, o que não pode ser surpreendente, atendendo a que se trata da fase final de um campeonato do mundo, do desporto mais popular ao cimo da Terra, que ainda por cima contava com a participação da selecção portuguesa, coisa pouco frequente na história da competição.
Deu-se, é um facto, na comunicação social, mais relevância ao futebol, em detrimento da política, ou, direi eu, sabendo que estou a ser politicamente incorrecto, da politiquice.
Só que, contrariamente ao que sucedia durante o Estado Novo, não faltou em Portugal debate político, assim como não faltou, felizmente, futebol, tendo sido dada a possibilidade, a quem se interessa pelos dois temas, de escolher entre assistir à controvérsia sobre a cobrança de portagens nas SCUT ou a jogos de futebol entre selecções que integram os melhores praticantes do Mundo.
No que me respeita, a opção foi o futebol, apesar de ter um inegável interesse pela política, até porque a política portuguesa parece, na grande maioria dos casos, reger-se por princípios futebolísticos, adoptando, com demasiada frequência, procedimentos semelhantes àqueles que podemos verificar entre os menos civilizados amantes da modalidade.
E não faço, sequer, a comparação com os apoiantes da nossa selecção, felizmente a esmagadora maioria dos portugueses, porque esses, apesar das críticas ao treinador, na hora da derrota, nunca deixam de apoiar a equipa e sabem reconhecer o mérito do adversário.
Ao contrário, o comportamento da maioria dos nossos políticos assemelha-se ao do mais ferrenho dos adeptos dos nossos principais clubes, para quem o importante é a vitória da sua equipa, independentemente do modo como é conseguida, sem demonstrar qualquer respeito pelos adversários e, muito menos, reconhecer os seus méritos e capacidades.
Infelizmente, a nossa selecção foi eliminada da competição, deixando o campo aberto ao gladiatório político, para reocupar o centro da informação e da notícia, podendo os portugueses passar a "maçar a cabeça com questões económicas, sociais e políticas", tratadas com a isenção que todos conhecemos...
E para relaxarem de tanta maçada, as televisões, em canal aberto, não deixarão de os contemplar com doses, maciças, de brilhantes telenovelas, cujo carácter educativo é, amplamente, reconhecido...
Felizmente que Julho é um mês de férias, já com algum futebol, e em Agosto regressa o campeonato!

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