sábado, 31 de julho de 2010

CARTA AO TONY


Olá, Tony!
Desculpa que te trate por tu, mas o tratamento por você não me pareceu adequado à tua pessoa. E, além do mais, somos, ambos, da colheita de 1954, que as más línguas dizem ser uma das melhores colheitas da década, o que faz com que exista, entre nós, uma certa cumplicidade.
Claro que, a avaliar pelo teu exemplo, a colheita de 54 sai muito dignificada, ainda que saibamos que foram raras as castas, como a tua, que deram origem a vinhos de excelência. Digamos que, num bom ano, tu, Tony, foste um caso à parte.
Perdoa-me que te trate por Tony, mas tratar por António Feio um ser humano tão bonito, não dava jeito nenhum. E tu já deves estar habituado a isso, sobretudo depois do sucesso das "Conversas da Treta".
Ah, e já agora, o Tony é com y, propositadamente, que é letra mais parecida com o v, de vitória, uma palavra que descreve bem a tua passagem por esta vida.
Bem sei que a tua vitória deve escrever-se com letra maiúscula, mas entenderás que Tony com y maiúsculo não dava muito jeito. Por isso, fica assim mesmo.
Sabes, fiquei muito chateado com esta coisa da tua morte, não só porque os tipos como tu não deviam morrer, fisicamente, antes dos 80, ou mais, mas também porque já me tinha habituado à ideia de que acabarias por conseguir matar o bicho de riso, como chegaste a sugerir, numa das tuas entrevistas.
Além disso, é um crime que o Zézé tenha ficado órfão de amigo, e nós órfãos dessa vossa magnífica parelha, que funcionava na perfeição, e nos proporcionou tantos momentos de alegria e boa disposição. Não há direito!
É claro que eu sei que a morte é a coisa mais natural da vida, mas caramba, uma vida como a tua bem merecia que não houvesse pressa nenhuma nessa inevitabilidade.
No que me diz respeito, lamento que só tenha começado a saber mais sobre a tua pessoa depois de conhecida a tua doença, mas nunca é tarde para te dizer o quanto fiquei impressionado com o modo como soubeste lidar com a adversidade.
Considero-te um exemplo de coragem, de resistência, e, porque não dizê-lo, de amor, como ficou demonstrado na última fase da tua vida. Amor aos teus e amor ao próximo, amplamente evidenciados nas tuas entrevistas.
E que enorme ironia, que um Homem, de apelido Feio, possa ter sido tão bonito.
Sabes, Tony, é a morte, prematura, de pessoas como tu, que me faz pensar que muitos dos problemas, e complicações, com que nos debatemos, no dia-a-dia, não passam, afinal, de uma grandessíssima treta...
Onde quer que estejas, Tony, aceita um sincero, e prolongado, abraço, no qual vai expressa a minha, profunda, admiração, e o meu enorme respeito, pelo Homem, e Actor, de eleição, que soubeste ser.

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