sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

CRISE EXPLOSIVA...

Desde a passada quarta-feira que Portugal está na boca do mundo, pelos piores motivos.
Para alguns, a culpa é do comissário Joaquin Almunia, ao colocar no mesmo plano a Grécia, Portugal e Espanha, para outros a culpa é do governo, que deixou chegar o deficit a 9,3%, e há até quem culpe as agências de "rating" pela sua insensibilidade face á situação portuguesa.
Pelo meio, um desnecessário confronto acerca da revisão da Lei das Finanças Regionais, num confronto que em nada dignifica a nossa classe política.
A juntar a tudo isto surge, agora, uma nova divulgação de escutas, do processo "Face Oculta", colocando o primeiro ministro, e o partido que o apoia, em sérias dificuldades...
Como português, não posso deixar de me interrogar até onde estão os partidos dispostos a chegar, antes de perceberem que a situação é grave, e não se compadece com jogos de poder, por mais legítimos que possam parecer.
Tive a possibilidade de acompanhar a CNBC nestes últimos dias, e verifiquei as consequências internacionais de toda esta trapalhada, a que os políticos portugueses têm obrigação de colocar um ponto final, o mais rapidamente possível.
Que o deficit é enorme, todos sabemos, mas não é menos verdade que todos estiveram de acordo quanto á necessidade de lançar dinheiro na economia, para fazer face á crise, á semelhança do que aconteceu com todos os países do mundo. Até os partidos da oposição !
Espero, para ver, o que vai suceder com a aprovação do Orçamento Geral do Estado, e com o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), mas tenho para mim que a conflitualidade actual não augura nada de bom...
Realço, por justiça, a posição do Presidente da República, a quem se devem as recomendações do Conselho de Estado, bem como as declarações, claras, quanto ás diferenças entre a situação da finanças públicas portuguesas e a de outros congéneres europeus.
No meio de tudo isto, o presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim, continua a brincar á política, na certeza de que continuará a gastar o que não tem, á custa do orçamento...
Atrevo-me a prever que a política pura e dura continuará, infelizmente, a dominar a actualidade portuguesa, e o novo caso da escutas dominará a discussão política em Portugal, durante as próximas semanas...
Como se os mercados internacionais não estivessem atentos ao que acontece neste cantinho á beira mar plantado...
Enquanto isso, foi encontrada uma base da ETA em Portugal, com cerca de meia tonelada de material explosivo.
Que me perdoem esta analogia, mas será que são necessários "explosivos" estrangeiros para pôr fim a esta situação, insustentável ?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A BRINCAR COM COISAS SÉRIAS...

A questão do Orçamento Geral do Estado para 2010, e da redução da Dívida Pública, têm dominado a discussão política nas últimas semanas.
É um bom sinal, quando o assunto é tratado com a seriedade que merece, pois fica menos tempo para os ditos e mexericos, que apenas contribuem para afastar os portugueses da discussão dos verdadeiros problemas do país.
Depois das negociações entre o governo e os partidos da oposição, e obtido o compromisso, com PSD e CDS, de que o Orçamento não seria rejeitado, eis que surge um problema com a proposta de alteração da Lei das Finanças Regionais.
Os partidos da oposição, e particularmente o PSD, aparecem agora a defender exactamente o contrário do que exigiram, e bem, para deixarem passar o Orçamento, a saber, a redução do deficit orçamental, e um rigoroso controlo da despesa pública.
E a proposta acaba de ser aprovada, em sede de comissão parlamentar, com os votos contra do PS, o que é um péssimo sinal para os mercados...
O argumento utilizado é o de que, com a aprovação da proposta, o agravamento da despesa representa menos de 0,1% do deficit previsto, pelo que não será por aí que o gato vai ás filhoses...
Só que o preço da dívida portuguesa, e dos "Credit Default Swaps", nos mercados internacionais, que já reflectia os problemas existentes, e o risco de contaminação da crise na Grécia aos países mediterrânicos, sofreu um significativo abanão, com reflexos nos mercados bolsistas.
Para quem afirma, como os responsáveis dos partidos de oposição, que o problema da alteração da lei não intensifica os efeitos negativos quanto á capacidade de Portugal para controlar o deficit, recomendo a sintonização, urgente, da CNBC, para perceberem o modo como os analistas, e os mercados, estão a reagir a esta medida...
Num momento difícil para o país e para os portugueses, não faz nenhum sentido agravar a situação, para favorecer uma região que está numa situação privilegiada, quando comparada com outras regiões de Portugal continental...
E se a política é a arte do possível, alguém tem que ser capaz de explicar ao Dr Alberto João Jardim que há momentos em que já não é possível continuar a brincar com coisas sérias.

"POLITICAMENTE DECENTE"...

Uma conhecida rádio portuguesa noticiava, ontem de manhã, citando um jornal igualmente conhecido, que um grupo de três deputados do Partido Socialista apresentara uma proposta que visava tornar públicas as declarações de rendimento de todos os portugueses.
Cumprindo o seu dever jornalístico, essa mesma rádio entrevistou um dos subscritores dessa proposta, o qual, para além de defender os seus méritos, teve o cuidado de explicar que se tratava de uma proposta subscrita por três deputados, que não tinha sido submetida á discussão do grupo parlamentar e que desconhecia qual a posição do governo sobre a mesma.
Seis horas mais tarde, no noticiário, a mesma estação de rádio referia-se a essa proposta como um "projecto de lei", entrevistava um ex-ministro das finanças sobre o assunto, e pedia a um deputado de um partido da oposição a sua opinião sobre a contitucionalidade da mesma.
Tudo como se de um projecto de lei se tratasse.
Claro que, dirigentes dos partidos de oposição logo se apressaram a comentar, ferozmente, essa medida, aproveitando para desancar o governo...
Eu, que ouvi tudo, em directo, nem queria acreditar.
E lembrei-me dos tempos em que o professor Marcelo Rebelo de Sousa era apelidado de criador de factos políticos, uma imagem que o perseguiu durante muitos anos, do episódio das escutas a Belém, de tudo o que se diz sobre o relacionamento de José Sócrates com os meios de comunicação...
Quando uma notícia pode ser "construída" com esta facilidade, e "credibilizada" pelos comentários e análises de responsáveis políticos, existem fortes razões para duvidarmos da qualidade da nossa democracia.
Numa sociedade cada vez mais dominada pelo "politicamente correcto", talvez fosse tempo de desenvolvermos o conceito de "politicamente decente"...

A PROPÓSITO DA MORTE DE UM AMIGO...


Perder, de forma inesperada, um amigo, é um sentimento difícil de descrever.
Mas existem vidas para as quais a morte se transforma num alívio, num merecido descanso, atentas as dificuldades humanas para lidar com situações de angústia e sofrimento, causadas por terceiros...
Morrer de morte natural, repentina, é uma bênção, mesmo quando ela vem aos 58 anos, uma idade bem distante da esperança média de vida, nos nossos dias.
Todos sabemos que a morte é a coisa mais natural da vida, mas comportamo-nos como se fossemos viver indefinidamente, o que torna o mundo infinitamente pior do que seria se tivéssemos presente, diariamente, essa realidade.
O dinheiro gasto em flores, por muitos dos que passaram no velório foi, seguramente, superior ao que gastaram, ao longo da sua vida, para lhe proporcionarem momentos agradáveis e lhe dizerem quanto o apreciavam.
As conversas sobre o que foi, e poderia ter sido, a sua vida excederam, muito provavelmente, os momentos de trocas de impressões, sinceras, que com ele tiveram.
As virtudes que nele descobriram, depois de morto, raramente lhe terão sido expressas em vida, fazendo-lhe saber que podia contar com o seu apoio em momentos de dificuldade, e por tantos ele passou...
Foi cremado, mesmo sem que tenha declarado ser essa a sua vontade, o que é sempre melhor, digo eu, do que estar sepultado numa campa ao abandono, como é minha convicção que acabaria por acontecer...
Por tudo isto, não resisti a uma reflexão, tão fria quanto possível, a este respeito, que mais não fez do que reforçar as minhas convicções, tantas vezes transmitidas ao meu filho e que aproveito para partilhar convosco:
-Quando morrer quero ser cremado, pois o trabalho que dei em vida á família e aos amigos foi mais do que suficiente;
-Dispenso a presença, nas cerimónias fúnebres, de todos os que me trataram mal em vida, ou para quem fui indiferente. Eles poupam tempo, e o defunto agradece;
-Lembrem-me como fui, com as poucas qualidades e os muitos defeitos que tenho, não vá o Senhor enganar-se, tomar-me como um anjo, e atirar-me directamente para o Céu, coisa que não mereço, que me parece ser, numa perspectiva agnóstica e terrena, um local entediante;
- Não chorem a minha ausência, celebrem o meu alívio por já não ter de aturar tanto cinismo, tanta hipocrisia, tanta injustiça e tanta maldade;
-Não gastem dinheiro em flores, que prestam um muito melhor serviço aos vivos quanto viçosas, alegrando um jardim, do que mortas, secando num cemitério. O defunto dispensa, e a natureza agradece.
E para terminar, uma nota final, não menos importante:
Se, por acaso, alguém sentir o desejo de me manifestar a sua amizade ou apreço, agradeço que o faça em vida, enquanto tenho tempo de agradecer e retribuir. Depois de morto, fica dispensado.