quarta-feira, 30 de junho de 2010

A PROPÓSITO DA "GOLDEN SHARE"


O Governo português resolveu utilizar a "golden share" que o Estado tem na PT, para impedir a compra da participação que a empresa tem na brasileira Vivo, por parte da Telefónica, apesar de a maioria dos accionistas se ter pronunciado a favor da venda.
Sobre os argumentos e os interesses das partes, outros se pronunciarão, com maior propriedade do que eu, sendo que a Telefónica anunciou o alargamento do prazo da sua oferta para o dia 16 de Julho, porquanto aguarda uma decisão comunitária sobre a legalidade da utilização dos direitos que referida "golden share" confere ao Estado, que deverá ser conhecida no próximo dia 8.
Independentemente de qualquer juízo de valor sobre a posição assumida pelo Governo, parece-me relevante que se suscitem algumas questões, que aqui passo a elencar, de modo a evitar conclusões precipitadas. A saber:
- A posição assumida pelo Governo resulta, ou não, do facto de considerar que está em causa a defesa dos interesses do Estado português?
- Será legítimo que um accionista, que conhecia a existência da "golden share" no momento da aquisição das acções, conteste a posição assumida pelo Governo, com o argumento de que essa posição não serve os seus interesses?
- Será razoável pedir a um Governo que abdique da utilização dos direitos que lhe confere uma "golden share", com a justificação de que prejudica o interesse dos restantes accionistas?
- Não será que uma "golden share" se destina a preservar aquilo que o Governo considera serem os superiores interesses do Estado, em situações em que a maioria dos accionistas tem um entendimento contrário?
A resposta a estas simples perguntas, sendo que muito mais se poderiam colocar, deverá ser suficiente para contextualizarmos a situação que se está a viver na PT e a legitimidade, ou não, das posições assumidas por cada um dos intervenientes.
Independentemente da bondade e rendibilidade do negócio, para cada uma das partes envolvidas.
Questão completamente diferente, ainda que da maior relevância, é a de sabermos qual a posição da Comunidade Europeia perante a existência de uma "golden share", mas esse é um outro tema e um outro debate.
Enquanto a "golden share" existir, apenas importa saber da razoabilidade, ou não, da utilização, pelo Governo, dos direitos que esta confere ao Estado.
Que me perdoem os interessados mas, em meu entender, todos os argumentos e debates que extravasem estas questões básicas, podem ser da maior relevância, mas não têm nada a ver com a essência do tema.

CARTA ABERTA A CARLOS QUEIROZ



Meu Caro Carlos Queiroz

Decerto que não levará a mal esta minha ousadia, mas senti que lhe devia dirigir esta carta.
Como amante do futebol, acredito que a popularidade do jogo reside no facto de ser simples e compreensível por todos, permitindo uma total identificação dos adeptos com a problemática que o envolve, servindo de justificação para a existência de tantos programas desportivos, tantos jornais, tantos comentadores e tantos treinadores e seleccionadores de bancada.
É na dupla qualidade de adepto e português que me permito dirigir-lhe esta carta, que não tem como objectivo chorar sobre leite derramado, mas apenas sugerir uma forma diferente de encarar o futuro.
Faço-o agora, depois de Portugal ter sido eliminado, com justiça, pela Espanha, quando você deixou de ser o “bestial” em que se tornara, após a vitória sobre a Coreia do Norte, para voltar a ser a “besta” que tinha sido, até ao jogo com a Costa do Marfim, porque considero importante que se analise, desapaixonadamente, o que correu mal. Não para desancar quem quer que seja, mas para que possam ser efectuadas as alterações que se tiverem por necessárias.
Você sabe que voltou à “mó de baixo”, se é que alguma vez de lá saiu, relativamente à opinião de muitos portugueses que gostam de futebol, mas não creio que isso possa constituir motivo de espanto para si, homem habituado a estas coisas e conhecedor da nossa propensão para passarmos, num ápice, do estado de euforia à depressão e vice-versa, pelo que acredito que dispensa solidariedades bacocas.
Confesso-lhe que aprecio o seu trabalho, que já aqui defendi por diversas vezes, e acredito na sua capacidade para pensar, organizar e renovar as estruturas do futebol nacional, o que me levou a saudar o seu regresso à Federação Portuguesa de Futebol e me leva, agora, a desejar a sua continuidade.
Não que eu considere brilhantes os resultados desportivos que conseguiu, mas porque entendo que o nosso futebol não pode prescindir dos conhecimentos e da capacidade de organização de que você já deu provas.
Por isso defendo a sua continuação como responsável pela organização de todo o futebol nacional, nos seus mais diferentes aspectos, sem as funções executivas relacionadas com o cargo de treinador.
Digamos que você faria as vezes do nosso saudoso Manuel da Luz Afonso, embora com funções mais abrangentes, tendo a seu lado uma figura como a do não menos saudoso Otto Glória, a quem competiria treinar e dirigir a selecção nacional, sénior, supervisionando o treino das restantes.
E se defendo esta opção é porque entendo que a sua continuidade ao serviço das selecções não pode estar dependente dos resultados dos jogos, sem negar que me desagrada a sua opção por um modelo de jogo que privilegia demasiado os aspectos defensivos, mesmo perante adversários de valia manifestamente inferior, desperdiçando o talento e a magia de alguns dos nossos jogadores, em particular de Cristiano Ronaldo.
Acreditei que, depois da exibição conseguida, na segunda parte do jogo, contra a Coreia do Norte, você iria optar por um modelo menos fechado e tentaria lutar pela conquista do primeiro lugar no grupo. Mas mesmo quando o não fez, admiti que apenas estivesse a resguardar alguns jogadores, para poder atacar a segunda fase da competição com uma estratégia mais ousada.
Puro engano, da minha parte, porquanto você estava, de facto, a aproveitar um jogo cujo resultado era indiferente, em termos de apuramento, para testar a organização defensiva para a eliminatória com a Espanha, como se veio a comprovar.
Sem discutir a bondade das suas opções, em matéria de jogadores utilizados, parece-me claro que você apenas se preocupou em jogar à defesa, com as consequências que todos conhecemos.
Responder-me-à que, se tivéssemos ganho ninguém discutiria o carácter demasiado defensivo do futebol praticado e eu não poderei deixar de estar de acordo consigo.
Acontece que, no futebol, como na vida, são os resultados que contam e se encarregam de justificar, ou não, a bondade das estratégias adoptadas, como foi demonstrado pelo ultra defensivo Inter, de José Mourinho, no jogo em que eliminou o Barcelona, na Liga dos Campeões.
Mas parece-me inegável que Portugal saiu do Mundial sem glória e com o estigma de ser uma selecção demasiado defensiva e calculista, apesar da criatividade de muitos dos seus jogadores, que não apenas Cristiano Ronaldo.
Cristiano Ronaldo que terminaria o Mundial debaixo de duras críticas, por acção e omissão, e acabaria por ser, também, uma vítima de um esquema táctico que não contribuiu para que pudesse expressar todas as suas qualidades futebolísticas.
Não penso que seja da exclusiva responsabilidade do jogador a sua decepcionante actuação e lamento dizer que, se alguma conclusão pode ser retirada desta sua participação, é que ainda não reúne as condições necessárias para poder capitanear a selecção nacional.
Admito que a participação de Portugal possa ser considerada honrosa, tendo em conta que apenas sofremos um golo e fomos eliminados pelo campeão europeu em título, mas terá de concordar que o modelo de jogo adoptado não prestigiou o futebol português.
Facto que não pode, nem deve, ser utilizado para pôr em causa as suas, inegáveis, qualidades, enquanto responsável pelas selecções nacionais, e muito menos para ignorar tudo o que de bom foi feito, como já começaram a fazer muito dos seus críticos.
Parece-me claro que é preciso reavaliar o modelo organizativo em que assenta o nosso futebol e efectuar as alterações que se revelem necessárias, mas não acredito que os actuais dirigentes federativos tenham capacidade para liderar esse processo.
Por isso e porque o considero um homem de bom senso, capaz de fazer uma auto-crítica, atrevi-me a escrever-lhe esta carta, para lhe sugerir que aceite o desafio de diagnosticar e promover as mudanças estruturais necessárias, proponha a redução das funções que lhe estão atribuídas e entregue o cargo de treinador a alguém de reconhecida competência, para que possamos vir a dar do futebol português uma imagem diferente daquela a que ficámos associados, neste Campeonato do Mundo.
Reconheço que não é um assunto fácil, mas acredito, atentas as suas qualidades intelectuais e humanas, que não deixará de reflectir sobre a bondade desta minha sugestão.

Aceite os cordiais cumprimentos, deste seu admirador

Rui Mascarenhas Santos

terça-feira, 29 de junho de 2010

AINDA A FIFA E A VERDADE DESPORTIVA



Pela actualidade e importância do tema, não resisto a reproduzir um artigo, que considero brilhante, publicado pelo jornalista brasileiro José Antunes de Souza, na página da Universidade Do Futebol, na internet.

A opaca sociedade do futebol

Pede-se aos órgãos dirigentes um sentido de responsabilidade histórica ao futebol, substituindo a teimosa percepção insular da realidade deste novo mundo

José Antunes de Sousa*

Em Portugal, um jornalista lançou uma iniciativa de uma petição pública a favor da introdução no futebol do contributo das novas tecnologias, como meios supletivos de prova, visando a salvaguarda da verdade desportiva, petição que foi já entregue, com assinalável mediatismo, na Assembleia da República.
Embora seja duvidoso este pretendido casamento entre a verdade desportiva e as instâncias políticas, uma vez que os órgãos supremos do Futebol e os órgãos do Estado, justamente porque os anima mais que tudo o desígnio da conservação do poder, manifestam indisfarçável desconforto face a um qualquer escrutínio – popular ou electrónico – fica, mesmo assim, o sinal claro de um significativo levantamento nacional contra a obstinação conservadora da Fifa.
Ainda há dias, na sequência de uma importante reunião em Zurique dos membros do Internacional Board da Fifa, o secretário-geral deste organismo, Jerome Valcke, declarava, do alto de uma anacrônica sobranceria: “a tecnologia não deve entrar no jogo” (porque é, se calhar, muito o que está em jogo, digo eu!), acrescentando de seguida, com comovente convicção, que o futebol deve ser preservado como “um jogo humano”. Nem mais.
Mas é precisamente porque, como Terêncio, “nada do que é humano me é indiferente”, que acuso esta contundência fifeira de inumanidade (mais que desumanidade), porque nada nega mais flagrantemente essa pretensa humanidade do que a injustiça – ainda por cima praticada pelos próprios homens.
Vejamos como é tortuoso o desígnio da Fifa e hipócrita a sua teimosia: o que torna o espectáculo futebolístico um evento de inigualável impressividade junto de multidões e de massas não é o erro grosseiro do árbitro validando o gol de uma bola empurrada com a mão ou não validando um outro que poderia ser decisivo de uma bola que transpôs, mais de um metro, a linha de baliza – não. Isso o que faz é incendiar gratuita e desnecessariamente os ânimos de quem assim se rebela contra injustiça tão impunemente contra eles praticada. Isto é, ao contrário do que afirma, em tom piedoso o Senhor Valcke, tão flagrante e inqualificável atitude o que faz exactamente é desumanizar o futebol, como desumanizantes foram até hoje todas as prepotências e ditaduras da história.
A transbordante emoção que electriza as gentes do futebol provém do padrão gestual do próprio jogo e da enorme margem de imprevisibilidade, acaso e capricho que o caracteriza – e esta, além, de suficiente, é a única fonte genuína e legítima de emoção a que as pessoas boamente se dispõem e entregam.
Perante esta evidência, suspeita se nos torna esta obstinada resistência da Fifa ao papel adjuntivo e subsidiário das novas tecnologias no jogo de futebol. Se, com efeito, tão veementemente resiste ao que parece ser um bem então talvez isso seja o sinal de que com essas tecnologias no futebol algo de muito importante poderá a Fifa perder. É, aliás, clássico: a resistência à mudança resulta sobretudo do medo de perder privilégios e poder. De fato, se as novas tecnologias o que visam é apenas uma maior garantia da verdade desportiva, o que será que de mais importante do que isso pode a Fifa vir a perder? Só se for um ínvio e secreto desígnio de a essa verdade desportiva poder condicionar ou manipular. É como se a componente judicial, numa espécie de corporativa aliança entre organismos dirigentes e árbitros de campo, quisessem guardar à viva força para si uma franja discricionária de poder.
É sabido que o futebol moderno, enquanto indústria poderosíssima, se impõe como subsistema do capitalismo. E bem sabemos também como o sistema capitalista se alimenta de uma racionalidade que visa a conquista, a dominação, o poder. À moderna razão, enquanto expressão de poder, convém alimentar-se das emoções que massificam e uniformizam comportamentos susceptíveis de uma fácil exploração, mas reservando para si o espaço arbitrário de decisão – que é a forma de servir uma estratégia de auto-perpetuação. Ora, é esta razão, que impõe uma razão que se não pode contestar, que, visando o poder, se sobrepõe, por via autocrática, à genuína emoção e ludicidade que caracterizam o código genético deste fantástico jogo que é o futebol. Porque a emoção ou é endógena e, nessa medida, o futebol é uma atividade realmente humana, ou ela é exógena, provocada e induzida por factores estranhos ao jogo propriamente dito e, nesse caso, essa emoção é revolta, raiva, ressentimento – tudo fatores que ajudam a destruir o que supostamente se quer acautelar, o futebol.
Eis o que, na sequência da Copa do Mundo de 1990, escrevia a socióloga Zillah Branco: “então será o descontrolo total das populações que são condenadas a meros espectadores de decisões arbitrárias. Que os poderosos, inclusive a Fifa, assumam as suas responsabilidades, porque não é com polícia que se faz justiça social quando o abuso de poder é lei consagrada” (Jornal A Bola,5 de Agosto de 1990). E um pouco mais acima, em inspirado desabafo que espelha, com fidelidade, a reação do torcedor anônimo, escrevia aquela cientista social: “o outro aspecto elucidativo do uso do poder é a transferência da sacralização das regras do jogo para a figura do árbitro. Em campo ele é todo-poderoso, não há autoridade que esteja acima dele, nem de Presidentes, nem de Reis, nem de Deus. Os olhos e o coração de milhões, talvez de biliões de pessoas, estão voltados para ele à espera da sua sentença. Mas o que mais impressiona é o exercício ditatorial do poder que lhe é permitido. O jogador não pode discordar, não pode manifestar a sua dúvida. Ele levanta o cartão amarelo ou vermelho com a mesma soberania de grande imperador que condena inapelavelmente à morte quem ousou contrariá-lo” (Ibidem).
Parece haver, pois, como que uma organização piramidal, feita de uma tácita corporação em torno de um poder absoluto. A Fifa, para preservar esse poder, que se quer incontestável, vê no árbitro no terreno de jogo um seu aliado, quando não um seu comissário – o árbitro como a iconização ao vivo desse mesmo poder.
Daí ainda a lógica discricionária da avaliação e promoção dos árbitros que, assim, mantêm com a estrutura que os gera e gere uma relação dócil e servil, pois é da natureza de um qualquer chefe nomeado reverenciar quem o designa e espezinhar quem o serve (neste caso, os jogadores e demais intervenientes no jogo). É o que, em psicologia social e das organizações, se costuma designar por “efeito ciclista”: salamaleques para cima com a cabeça encurvada e pisadelas com os pés nos pedais para baixo.
Se quer a Fifa que seja humano o futebol, por que razão não acolhe no seu seio, por analogia com o sistema judiciário, a possibilidade de uma instância garantística que, com maior fiabilidade, favoreça o acerto na decisão? Quem se pode sentir diminuído com isso? O que será mais importante, o respeito pelo esforço dos atletas ou o ego envaidecido de um senhor que julga ter na ponta do apito a força suficiente para provocar um tornado global? A que aproveita, pois, esta opacidade sistêmica?
É que o poder supletivo de confirmação e apelo que os meios tecnológicos inegavelmente representariam instituir-se-ia em rival do atual poder das instâncias deliberativas da Fifa e da Uefa cuja glória de detentoras da última palavra se toldaria e, de alguma maneira, se dissiparia, pelo menos, em boa parte. Com a prova na hora da justeza da decisão tomada, grande parte de conflitos e suspeições seriam atalhados com evidentes benefícios para todos os intervenientes – exceto para os inefáveis juízes de Nyon ou Zurique que quase ficariam à beira do desemprego.
Que é preciso evitar que o futebol seja descaracterizado? Sem dúvida. Mas isso consegue-se evitando a banalização que adviria de um recurso por tudo e por nada aos novos meios tecnológicos. Que, mesmo assim, esse processo implica interrupções de jogo? Sim, nada, porém, que se compare às atuais paragens provocadas por zangas entre jogadores, lesões simuladas e discussões com a equipa de arbitragem. De resto, parar para corrigir e retificar é incomparavelmente mais humano e desportivo (“fair-play”) do que, depois de uma demorada sarrafusca entre jogadores e árbitros, se persistir num erro de bandeira que subvertesse irreparavelmente a verdade do desfecho do jogo.
Ao contrário do que alguns possam pensar, esta tentativa obstinada de manter a todo o custo uma zona límbica e baça de auto-empoderamento oligárquico, em vez de preservar o futebol da ameaça degenerativa, aumenta o “ruído” no interior do sistema, agravando e acelerando perigosamente a sua entropia.
Dir-se-ia mesmo que esta anacrônica oclusão aos ventos diáfanos de uma maior justiça desportiva está a entupir os canais da auto-regeneração da estrutura do futebol, ameaçando-a de cancro que a pode destruir de vez.
O que se pede neste momento aos organismos que superintendem o fenômeno do futebol é um sentido de responsabilidade histórica, ou seja, a sensata leitura dos sinais dos tempos, em vez desta teimosa percepção insular da realidade deste nosso novo mundo.


*José Antunes de Souza é jornalista e autor do livro "Desporto em flagrante"

COMER E COÇAR...



Diz o ditado português que "mais vale tarde do que nunca", mas talvez o mais apropriado para definir o que acaba de se passar seja "depois de casa roubada, trancas à porta".
O modo como a França se apurou para a fase final deste Campeonato do Mundo deveria ter sido suficiente para obrigar a FIFA a uma reflexão, de forma a prevenir erros, grosseiros, de arbitragem.
Mas assim não sucedeu, tendo a entidade que controla o futebol mundial preferido, uma vez mais, continuar a ignorar a realidade.
Afinal, do outro lado estava a Irlanda, país pequeno e economicamente menos importante, nesta coisa dos negócios do futebol...
Só que o Mundial começou e dois clamorosos erros de arbitragem ajudaram a afastar as selecções da Inglaterra e do México, dos quartos-de-final da competição, facto a que a FIFA já não poderia ficar indiferente, ou não estivessem envolvidas duas selecções de países com poder, efectivo, no mundo do futebol.
E a reacção não se fez esperar, tendo nós ficado a saber, agora, que o presidente, Joseph Blatter, pediu desculpa aos dois países, em nome da FIFA, e já admite reabrir o dossier da tecnologia.
Tomo a liberdade de transcrever as suas declarações, tal com são citadas na página da ESPN-Brasil,(http://espnbrasil.terra.com.br/copadomundofifa):

"É óbvio que depois da experiência nesta Copa do Mundo até agora seria algo sem-noção não reabrir a questão da tecnologia no encontro da FA Board (conselho que dita as regras do esporte) em julho. Pessoalmente, eu lamento quando você vê claros erros de arbitragem, mas isso não é o fim de uma competição ou do futebol, isso pode acontecer", disse Blatter.
"Ontem eu falei com as duas federações diretamente interessadas pelos erros da arbitragem, Inglaterra e México. Eu expressei a eles desculpas e entendo que eles não estejam felizes e que as pessoas estão criticando. Nós naturalmente levaremos em conta no conselho a discussão sobre tecnologia e teremos essa primeira oportunidade em julho na reunião", continuou.
"Isso aconteceu em 1966 e então 44 anos depois - embora não sido a mesma situação. Eu peço desculpas a Inglaterra e México. Os ingleses agradeceram e aceitaram que você pode vencer e perder, e os mexicanos acenaram com suas cabeças e aceitaram", revelou.
O presidente da Fifa, porém, explicou que o único caso que será discutido é o uso da eletrônica na linha do gol, e não se houve impedimento em algum lance.
"A única base que nós vamos trazer de volta para discussão é a tecnologia da linha do gol. Futebol é um jogo que nunca para, e se no momento houver uma discussão se a bola estava dentro ou fora, ou se era uma oportunidade clara de clara, nós damos uma possibilidade para uma equipe chamar por replays uma ou duas vezes, como no tênis? Para situações como no jogo do México, você não precisa de tecnologia".

Apesar das gralhas no último parágrafo, que reproduzo por questões de fidelidade, resulta claro que, para Blatter e a organização que representa, a preocupação não é a de melhorar a verdade desportiva, mas apenas corrigir erros demasiado grosseiros, como a invalidação de um golo, com a bola a ultrapassar, em mais de um metro, a linha de baliza.
Ou o presidente da FIFA e eu não vemos os mesmos jogos, ou justificar a não introdução do recurso ás novas tecnologias com o facto de o futebol ser "um jogo que nunca pára", só poderia dar mesmo para rir, se não se tratasse de assunto sério.
Quanto tempo útil tem um jogo de futebol? Quanto do tempo desperdiçado se deve a simulações de lesões e à entrada em campo de maqueiros que, à sua chegada, se revelam dispensáveis? Quanto tempo demoraria ao quarto árbitro rever, numa televisão, uma situação de fora-de-jogo clamoroso, como sucedeu no jogo do México, e a transmiti-la ao árbitro?
As justificações da FIFA para evitar a introdução de mecanismos que assegurem o respeito pela verdade desportiva, no futebol, não passam de desculpas de mau pagador, preferindo deixar aos homens do apito a responsabilidade por erros que demorariam segundos a corrigir. Vá lá saber-se porquê...
De todo o modo é inegável que estamos perante um avanço, no sentido do respeito pela verdade desportiva, pelo que tenho a esperança de que, também nesta matéria, se venha a justificar a aplicação, num futuro próximo, de um outro ditado português, segundo o qual "Comer e coçar, o pior é começar...".