terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Num período em que se vai iniciar a discussão do Orçamento Geral do Estado, em Portugal, a ideia parece-me excelente.
Pela sua originalidade, e criatividade, é bem o exemplo da irreverência brasileira, ao seu melhor nível.
O Instituto Maurício de Nassau, no Recife, resolveu instalar um placard, no perímetro da faculdade, que possibilita aos recifenses saberem, de forma actualizada, quanto é que o país arrecada de impostos e taxas, municipais, estaduais, e federais, ao longo do ano.
Não sei se, de posse de esta informação, os pernanbucanos, e os recifenses, em particular, se tornaram mais exigentes, relativamente aos gastos, supérfluos, da administração pública, mas quero acreditar que sim, até pelas reacções, desfavoráveis dos governantes, naturalmente, á sua instalação.
Os números são impressionantes, se tivermos em consideração que respeitam, apenas, aos 4 primeiros dias do ano, e, apesar da dimensão do país, tanto dinheiro arrecadado tem de servir para melhorar, significativamente, a qualidade de vida dos brasileiros.
Reconheça-se, contudo, que, o presidente Lula, quando abandonar o poder, na sequência das eleições presidenciais, este ano, deixará saudades, pois é inequívoco o contributo dos seus governos, para melhorar a vida dos brasileiros mais necessitados.
Mas é bom que os cidadãos tenham uma ideia do que são as receitas do país, para melhor poderem aquilatar do modo como são gastas.
A generalização dos impostômetros, que acho de uma tremenda originalidade, parece-me uma excelente ideia, e atrevo-me a sugerir que, as nossas universidades patrocinem a instalação de um placar idêntico, em todas as cidades portuguesas.
O povo ficaria mais informado, e o Estado, quem sabe, talvez tivesse vergonha, e decidisse reduzir os gastos supérfluos...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

ANO NOVO, VIDA...VELHA

O Manecas Barbeiro, O Nando Farmacêutico e o Monas Picheleiro tomavam, juntos, o seu primeiro café de 2010.
-Ó Monas, vocês ainda não digeriram bem a derrota, na Luz. A coisa não está fácil, para os vossos lados, diz o Manecas, sem conseguir esconder um, malicioso, sorriso.
-Essa agora, ganhasteis, está ganho, não se fala mais nisso, retorquiu o Monas. Deixa que no dragão lebais o troco.
-Ah sim? E então o que é que significa o comunicado dos jogadores do teu clube, a dizerem que não prestam mais declarações ao jornal "A Bola"?
-E estão cheios de razão. Tu num bês a forma como o jornal trata o FCP? E toda a gente sabe que "A Bola" é do Benfica.
-Ó Monas, vai-te catar, com essa conversa. Querem é arranjar um inimigo externo, como é costume, para desviarem as atenções da má fase da equipa. Ou será que já te esqueceste dos "blackouts", sempre que vocês passavam por uma má fase?
-Nisso o Manecas tem razão, ó Monas, interveio o Nando. Infelizmente, no futebol português, é sempre assim. Quando as coisas estão mal, arranja-se um inimigo externo.
-Lá estão bocês, com a conbersa do costume. E no Sporting? E no Benfica?
-Não é conversa do costume, não, é uma triste realidade. E não é só o Porto, o Benfica e o Sporting fazem o mesmo, atalhou o Nando.
-Tens razão, ó Nando, quando a coisa dá para o torto, todos correm a encontrar um inimigo externo. E as televisões, e os jornais, são um alvo fácil, até porque se põem, muitas vezes, a jeito...
-Pois eu concordo com a posição dos jogadores, rematou o Monas. Com o FCP num se brinca.
-Pois é. E é por culpa de gajos como tu que os dirigentes se permitem fazer coisas destas, replicou o Manecas, já num tom mais sério. Eu acho este tipo de comportamento uma vergonha, venha ele de quem vier.
-Contrariamente ao que diz o ditado, com o novo ano não começou uma vida nova, para o futebol português, acrescentou o Nando.
-É verdade. Neste caso, é "Ano Novo, Vida...Velha".
E lá continuaram a conversar, com o Nando entusiasmado, após a vitória dos leões, frente ao Braga, e o Manecas aproveitando a liderança do seu Glorioso, para dar uma bicadas nos rivais.
O Monas, esse, aguarda a chegada de melhores dias...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Á VOLTA DA TRAGÉDIA DE ANGRA...


A banalização da difusão de notícias de crimes, catástrofes naturais, atentados, gera, em grande parte dos cidadãos, estou disso convicto, uma certa indiferença perante a tragédia.
Mas também penso que, durante a quadra natalícia, quando todas as mensagens, por mais hipócritas que sejam, e muitas delas são, apontam no sentido da solidariedade, do amor ao próximo, do respeito pela pessoa humana, e pelas liberdades fundamentais, as tragédias e catástrofes, mesmo as naturais, tendem a "mexer" mais connosco.
Admito ter sido isso que aconteceu comigo, ao tomar conhecimento do que se passou em Angra dos Reis, num local paradisíaco, onde um um grupo de pessoas encontrou a morte, dormindo, após ter comemorado a passagem do ano, quando projectara momentos de diversão e se dispusera a pagar caro por eles.
Infelizmente, pagaram caro, muito caro mesmo, o atrevimento do Homem, em contrariar as leis da natureza, insistindo em construir desordenadamente...
Tivesse a catástrofe tido lugar daqui a uns meses e, acredito, o choque seria menor, pois teria sido antecedida pelas mortes "habituais", no Iraque, Paquistão, ou Afeganistão, em consequência da guerra de guerrilha, ou na China, na Tailândia, ou Japão, fruto de fenómenos naturais. E o espírito natalício tinha-se desvanecido...
Dizer que a morte é a coisa mais natural da vida, é uma "lapalissada" de todo o tamanho, admito, mas, sendo verdade, tenho sérias dúvidas que seja natural o modo como nos habituámos, no ocidente, a conviver com este tipo de notícias.
Dirão alguns, com razão, que, historicamente, já foi maior o número de mortes por catástrofes naturais, ou em consequência de actos violentos, e que a grande diferença, nessa capacidade para nos chocar, reside na "proximidade", decorrente da velocidade na difusão da informação.
Sabemos mais agora, com mais detalhe, e mais rapidamente, do que sabíamos no passado...
Mas talvez porque, socialmente, se tornou bem aceite o ideal de um mundo mais pacífico, e mais seguro, a tragédia passou a vender melhor, como atestam as capas de jornais, e as aberturas dos telejornais.
Apesar disso, não se me afigura natural que, no século XXI, em países civilizados, se explorem, até ao tutano, as tragédias, e desgraças, alheias, em nome de interesses comerciais. Não ignoro que rende muito, mas não é aceitável...
E como ainda não me consegui libertar do espírito natalício, embora sabendo que é pedir demasiado, atrevo-me a sugerir que, no início desta nova década, a comunicação social passe a privilegiar outras notícias, em detrimento das tragédias, demonstrando respeito pela memória dos que partem, e pela sensibilidade dos que ficam...
Não ignoro, contudo, que há sempre um amigo, ou familiar, que gosta de aparecer no retrato, mesmo por maus motivos, nem que a tragédia vende, é notícia, mas, como para tudo, existem limites...
As mortes em Angra chocaram-me, confesso, pelas circunstâncias, mas ajudaram-me a reflectir, sobre este assunto. Muitas outras se seguirão, ao longo do ano, igualmente trágicas, e mais, ou menos, mediatizadas.
Por isso, aqui fica registado o meu pesar, para este caso, e para todos os que vierem a ocorrer, ao longo de 2010, porque eu, confesso, sou dos que mudo de canal, ou de página, quando o tema é a tragédia....
Prefiro a comédia, e o riso, ao fado da "desgraçadinha", ainda que, como diz o povo, mas o povo nem sempre tem razão, isso possa ser entendido, socialmente, como sinónimo de "pouco siso"...




DEVE SER DA IDADE...


Quando, em 1974, me filiei no Partido Socialista Português, tinha eu 20 anos, recordo-me que, um amigo, alguns anitos mais velho, me disse que eu me iniciara na política do modo errado.
Portugal acabava de se ver livre de um regime ditatorial, de 50 anos, e uma boa parte da juventude aderira a partidos mais radicais, como a UDP, ou o MRPP.
Segundo esse meu amigo, para quem seria "lógica" a minha filiação num partido "mais á esquerda", atendendo á minha idade, e aos meus ideais, haveria uma ordem "natural" na evolução ideológica, e consequentemente, partidária.
Começava-se "à esquerda", para, com o avançar da idade, terminarmos num dos, então, chamados "partidos burgueses", nos quais ele incluía, "naturalmente", o PS.
Apesar da nossa amizade, não lhe segui o conselho, mas registei a observação, e viria, alguns anos mais tarde, a verificar, que essas mudanças ocorriam, de facto, só que não estou seguro que tivessem por base os motivos que ele evocava...
Há muito que deixei de militar no PS, mas nem por isso deixei de ser um votante no partido, e acredito que assim continuarei, até ao final dos meus dias.
Crítico de algumas das políticas seguidas pelos seus governos, discordando de algumas das medidas tomadas, revejo-me, globalmente, no seu ideário, e na perspectiva social democrata que o enforma.
O que não deixa de ser curioso é que, com o avançar da idade, e ao contrário das teorias desse meu amigo, me vejo mais preocupado com as questões sociais, com os pobres, os doentes, os desprovidos de direitos, e de liberdades fundamentais...
E, talvez por isso, ontem, ao ouvir, e ver, as notícias das celebrações da passagem de ano, por esse mundo fora, fazendo menção ás toneladas de fogo de artifício queimado, não tenha resistido a pensar que algo tem que estar muito errado.
Morrem milhões de pessoas, no mundo, com doenças cuja cura se conhece, desde há muito, e sempre se evocam motivos de ordem financeira para "justificar" a falta de vontade para se corrigir este problema.
No entanto, queimam-se milhões de euros, para celebrar a mudança de ano, ironicamente, poucos dias após o fim de uma quadra em que todos, ou quase todos, apelam á solidariedade, e formulam votos de um mundo mais justo...
Ontem, quando assistia a uma dessas queimas, dei comigo a pensar que muitas vidas se poderiam salvar com metade, apenas metade, dos dinheiros públicos gastos, em fogo de artifício, no final de cada ano...
Sei que muitos dirão que não é por aí que o problema se resolve, só que também sei que, para eles, nunca é por aí, eles que tiveram a felicidade, como eu, de não ter nascido pobres, em países pobres.
A melhor forma de nunca se fazer nada, é buscar a solução perfeita...
E não resisti a pensar que é preciso mudar o paradigma, alterar mentalidades, hábitos, e procedimentos.
O mundo só será melhor, mais justo, quando cada um de nós for menos complacente com a pobreza, com a fome, com a miséria!
Mas isso depende de todos, e de cada um, e se grandes causas, como o aquecimento global do planeta, motivam grandes movimentos de cidadãos, que melhor causa do que a morte por falta de medicamentos, e cuidados médicos, para mobilizar as opiniões públicas mundiais?
No caso vertente, atrevo-me a sugerir, simplesmente, uma redução, para metade, dos gastos, públicos, em fogo de artifício, sendo o seu montante alocado á erradicação da malária.
Será que é pedir muito?