quinta-feira, 25 de novembro de 2010

OS ADVERSÁRIOS MERECEM RESPEITO


Sou o sócio nº 5.964 do Sport Lisboa e Benfica, e passei a subscrever o MEO para poder ter acesso à Benfica TV.
Hoje, depois da derrota frente ao Hapoel, de Telavive, tive ocasião de assistir a alguns minutos do programa "Debate" e confesso que me senti envergonhado.
Ver os comentadores do programa tratar o estádio do dragão por "antro" e os sportinguistas por "lacaios" do Porto deixou-me incrédulo e incomodado.
Vamos por partes:
-Que um sócio, ou simpatizante, do Benfica, quando participa em programas em directo, utilize uma linguagem menos própria, ou mesmo grosseira, para com os adversários, é algo que pode acontecer, mas que deveria merecer, de imediato, uma chamada de atenção, por parte dos moderadores;
-Que benfiquistas, participantes num debate, eventualmente pagos, ou não, utilizem uma linguagem ofensiva, para com os nossos adversários é algo de inconcebível e altamente reprovável, que envergonha o Clube e quem autoriza, ou não se opõe a, esse tipo de comportamentos.
Os comentadores do referido programa eram três jovens, muito a tempo de aprenderem que os adversários devem ser tratados com respeito e que as Instituições estão muito acima do comportamento de alguns fanáticos intolerantes que as integram. E que quem não se dá ao respeito, não pode esperar ser respeitado.
Desrespeitar o Futebol Clube do Porto, o Sporting Clube de Portugal, ou qualquer outro adversário, no canal de televisão do Clube, pode conseguir uns quantos apoiantes, mas não honra o Sport Lisboa e Benfica, e envergonha, estou certo disso, a maioria dos benfiquistas.
Como sócio do Benfica, cumpre-me afirmar que verbero este tipo de comportamentos, que considero indignos de quem se orgulha de pertencer a um Clube secular, que sempre respeitou os seus adversários.
Apesar de saber que de pouco, ou nada, servirá, aqui fica o meu protesto e o apelo aos dirigentes benfiquistas para que ponham termo, de uma vez por todas, a este tipo de práticas, e comportamentos.
O Sport Lisboa e Benfica, com o seu glorioso historial, merece melhor.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ENQUANTO É TEMPO...


O Benfica acaba de ser derrotado, por 3-0, pelo Hapoel de Telavive, ficando, desde já, afastado da disputa pela passagem à fase seguinte da Liga dos Campeões.
Como benfiquista, a minha desilusão é total.
E de nada serve vir falar, como faz Jorge Jesus, das oportunidades criadas, do número de remates e de cantos ou da percentagem de posse de bola.
A verdade é que nada disso ganha jogos, mas sim os golos que se marcam, e os que não se sofrem.
O Benfica foi uma equipa pouco criativa, não soube reagir ao primeiro golo do adversário, afunilou demasiado o jogo e foi demasiado lenta.
Agora resta-nos esperar que não exista mais nenhuma surpresa desagradável e acreditar que iremos disputar a Liga Europa...
Mas parece-me necessário que se faça uma reflexão sobre o que tem sido este primeiro terço da época desportiva e se identifiquem as razões que levam a equipa, cuja qualidade todos reconhecemos, a ter tantas prestações infelizes e a revelar-se apática, em momentos em que se lhe exigia garra e determinação.
E também a equipa técnica, com destaque para Jorge Jesus, terá de reflectir sobre as suas opções, quer no que diz respeito à disposição da equipa em campo, quer quanto à escolha dos jogadores a utilizar, já que me parece inequívoco que têm sido cometidos demasiados erros.
Reajam, antes que a decepção se apodere de todos, jogadores, equipa técnica, dirigentes, sócios e simpatizantes, e uma época que se iniciou com elevadas e legítimas expectativas, face ao elevadíssimo investimento efectuado, venha a redundar numa monumental desilusão.

EM NOME DOS MAIS CARENCIADOS...


Os números ainda não estão apurados, mas os sindicatos já se apressam a informar-nos que se trata da maior greve de sempre, com um número de adesões superior ao que se registou em 1988.
Sobre os números, assistiremos, decerto, à trapalhada do costume, com o Governo e sindicatos a indicarem-nos números substancialmente diferentes e os órgãos de comunicação social a inclinarem-se num, ou noutro, sentido, de acordo com as simpatias dos analistas. Enfim, mais do mesmo...
Contudo, e a fazer fé em várias notícias publicadas, a adesão à greve terá sido quase nula, em empresas privadas de vários sectores.
Seja como for, o prejuízo causado à economia do país será enorme, pelo que, apenas numa tentativa de contextualização do tema, aqui deixo algumas reflexões:
1. Sendo esta greve, sobretudo, uma greve da função pública, e existindo muitos mais funcionários públicos do que em 1988, não será normal que o número de grevistas seja superior?
2. Com os professores em greve e as escolas fechadas, quantos dos grevistas terão sido forçados a aderir, por não terem com quem deixar os filhos?
3. Independentemente da sua posição face ao Governo, quantos serão os portugueses convencidos de que haveria alternativa a estas medidas de austeridade e quanto serão os que receiam que as medidas tomadas possam vir a revelar-se insuficientes, para acalmar os mercados financeiros?
Estas são, se me fosse dada essa possibilidade, as três perguntas que eu gostava de ver respondidas, a propósito da greve geral de hoje.
Claro que muitas outras se poderiam colocar, como o efeito da adesão, sempre elevada, dos trabalhadores dos transportes públicos no número de grevistas, ou a curiosidade de a esmagadora maioria dos grevistas serem aqueles que, trabalhando para o Estado, têm os seus postos de trabalho garantidos...
Infelizmente, Portugal atravessa uma situação económica e financeira particularmente difícil e existem sectores da população a passar por momentos muito difíceis.
Mas não deixa de ser irónico que muitos daqueles que mais protestam sejam quem mais beneficia do sistema que nos conduziu à situação actual.
E se o mesmo empenho, mobilização e gastos, para a realização desta greve geral, assim como o valor do dia de trabalho perdido, tivessem sido utilizados para beneficiar os mais carenciados, não teria sido mais útil para todos?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O "MILAGRE" IRLANDÊS...



Num momento em que, em Portugal, se envidam esforços para separar a situação económica portuguesa da irlandesa, passo a transcrever um brilhante artigo da jornalista Miriam Leitão, retirado da página do jornal "O Globo" na Internet, que descreve de forma simples e concisa os problemas com que a Irlanda se confronta.
(http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2010/11/23/as-crises-sao-iguais-343098.asp)

Enviado por Míriam Leitão - 23.11.2010 | 15h00m
COLUNA NO GLOBO


As crises são iguais

O que um país de 4,5 milhões de habitantes, com menos gente que no Rio de Janeiro, pode fazer ao mundo? Outra dúvida: como um país que foi apontado como exemplo durante anos e que cresceu em ritmo chinês pode estar em recessão, com deflação, e com risco de dar calote na dívida? Terceira questão: como negociar com um país cujo governo está caindo?
As dúvidas irlandesas derrubam mercados e preocupam. O Partido Verde disse que sairia da coalizão de governo e dois parlamentares independentes avisaram que não votarão o Orçamento. O primeiro-ministro, Brian Cowen, está resistindo mas disse que depois da aprovação do Orçamento vai dissolver o Parlamento. As autoridades do BCE, FMI e Reino Unido estariam negociando um pacote bilionário, que significa a metade do PIB da Irlanda, com um governo com os dias contados.
Esse é mais um dos inusitados desse mistério irlandês. O melhor aluno da classe está em recuperação. Por 20 anos, a Irlanda foi exemplo de disciplina fiscal: reduziu a dívida pública de 108% do PIB, em 1986, para 25%, em 2007 (vejam no gráfico). O PIB cresceu em média 7,4% ao ano de 1995 a 2007. Falava-se de milagre irlandês. O país era apontado como exemplo e havia mil explicações para o seu sucesso.
O problema é que parte do crescimento é resultado de uma bolha imobiliária. O preço dos imóveis subiu 315% de 1996 a 2007. De lá para cá, caiu 36%, tirando renda das famílias e causando prejuízos bancários bilionários.
— A crise da Irlanda em muitos aspectos se parece com a dos americanos e ingleses: uma economia que estava crescendo fortemente, com liquidez enorme a juros baixos e pouca regulação. Os bancos ficaram muito expostos a ativos imobiliários, com alavancagem excessiva. Em 2008, a bolha imobiliária estourou e tanto o sistema financeiro quanto as famílias ficaram com problemas — conta o economista Roberto Padovani, do WestLB.
A notícia que causou espanto ontem foi o tamanho do resgate anunciado à Irlanda, de 90 bilhões, ou metade do PIB irlandês. Outro número inacreditável é a projeção de déficit do governo para este ano: 32% do PIB.
Parece até erro. Isso tudo é déficit ou dívida? É mesmo déficit, que fará a dívida subir para 93% este ano, e superar a marca dos 100% no ano que vem. Todo o esforço feito em 20 anos pelo tigre celta foi por água Abaixo em apenas três anos, de 2008 a 2010.
O governo explicou que o socorro ao sistema financeiro é responsável por 20% do déficit de 2010. Ele expõe a fragilidade dos bancos, que, por um lado, foram atingidos pela bolha imobiliária e, por outro, sofreram de crise de confiança e saques dos correntistas. Do pacote, imediatamente serão repassados de >EuC2< 8 a 12 bilhões aos bancos, para impedir que eles fiquem sem liquidez. Desde 2008, eles já receberam 45 bi, contando a injeção de 12 bi de setembro. É o segundo socorro em três meses.
O problema é agravado porque o governo irlandês está endividado e agora ficará mais. Ou seja, o risco do sistema financeiro está se transformando em risco de dívida soberana, na medida em que os governos assumem os problemas bancários.
Em outubro, a Moody's colocou sob perspectiva negativa o rating Aa2 da Irlanda e agora diz que o mais provável é que ela perca de uma vez o grau de investimento. Esse é um dos vários problemas da questão. Por um lado, o pacote de auxílio vai aumentar ainda mais a dívida do governo. Por causa disso, haverá diminuição do rating, que tornará os empréstimos mais caros daqui para frente. Por outro, as medidas de austeridade fiscal devem diminuir a demanda e isso pode ter reflexo no crescimento e na arrecadação do governo.
Parece o oposto da célebre frase da obra de Tolstoi “Ana Karenina”, de que todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira. Os países em suas tragédias econômicas parecem todos iguais. Os bancos emprestaram irresponsavelmente, as pessoas foram ficando mais endividadas, pensando que estavam ficando ricas. Quando a bolha estoura, os ativos entram em queda livre, o governo aumenta os gastos para salvar os bancos e evitar o colapso da economia. Por causa do socorro, o déficit aumenta, os governos têm que pagar juros altos nas suas dívidas, as agências de rating rebaixam a avaliação dos países, alguma entidade estrangeira resgata o país e impõe ajustes. A dívida sobe mais ainda e os bancos exigem mais juros para rolar a dívida. Parece uma pessoa frágil com um trem vindo na direção contrária.