sexta-feira, 9 de julho de 2010

FAZENDO A BARBA...



Acabara de me barbear.
Senti que tinha a barba mal feita, através da passagem da mão esquerda pelo rosto, embora o espelho, na minha frente, não me permitisse detectar esse facto.
O recurso aos óculos, que deixara em cima da mesa-de-cabeceira, permitiu-me perceber duas tristes realidades:
A barba estava, efectivamente, mal feita e a minha vista já não me permitia que me escanhoasse como antigamente, sem o recurso àquele par de vidrinhos, alinhados horizontalmente.
Lembrei-me do meu pai.
Não sei, exactamente, o momento em que ele começou a usar óculos. Mas tenho a nítida lembrança do dia em que, ao beijá-lo, lhe fiz a observação:
-Pai, tens a barba mal feita!
A resposta não se fez tardar, com um sorriso, um daqueles sorrisos que só o meu pai sabia fazer, sorrindo com o rosto todo:
-Pois é, filho, sem óculos já não vejo nada. Deixa lá...
Vai longínquo esse dia, talvez tenham passado uns trinta anos, não sei, mas, agora, sei que chegou a minha vez.
Por isso, meu querido filho, se me vires barbeado ás três pancadas, já sabes que se tratou de mais uma tentativa, vã, é certo, para evitar recorrer aos óculos. Mas a idade tem destas coisas...
Para ti, meu querido e velho pai, apesar de já não poder partilhar contigo a sensação, quero que saibas, onde quer que estejas, que, agora, entendi o que me querias dizer com aquele "deixa lá"...
Finalmente, percebi o pleno significado do que me disseste naquele dia:
Esta coisa de ter que fazer a barba com óculos é uma enorme maçada!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A "VENDA" DO CAPITÃO...


Não sei o que pensam os meus amigos sportinguistas da venda de João Moutinho ao Futebol Clube do Porto, mas eu, confesso, se o meu Benfica vendesse, a um dos seus principais rivais, o seu capitão de equipa, ficava "em brasa".
É que, sem questionar que o Sporting tivesse de vender o jogador, para fazer face às suas necessidades de tesouraria, permitir a transferência de João Moutinho para o Porto deve ter tido o efeito de um tremendo balde de água fria, despejado, em dia de inverno, sobre a cabeça da maioria dos adeptos do clube.
Pinto da Costa mostrou, uma vez mais, que é um especialista neste tipo de contratações, tendo conseguido nova vitória psicológica, desta vez à custa do Sporting, num tabuleiro em que tem que se lhe reconhecer a mestria...
E eu, que sou adepto do Glorioso, que tem a águia como símbolo, só posso dizer que o Sporting foi passarinho...

UM MUNDIAL SEM MAGIA


Quando se atingiram os quartos-de-final do Mundial 2010, poucos seriam aqueles que se atreveriam a vaticinar o afastamento do Brasil e da Argentina.
Quando havia, até, quem admitisse que as meias-finais poderiam ser disputadas apenas entre selecções da América do Sul, eis que duas equipas europeias, Holanda e Alemanha, despacham, de forma concludente, os dois principais favoritos à conquista da prova, digo eu, enquanto a Espanha conseguia a qualificação graças a mais um momento de classe de Iniesta e Villa, face a um Paraguai a praticar excelente futebol, depois de o Uruguai ter eliminado o Ghana a muito custo, graças a um penalti desperdiçado no último minuto.
Enfim, quem imaginaria que o Uruguai seria a única equipa da América Latina a estar presente nas meias-finais da competição? Eu, seguramente, não.
Poder-se-à dizer que este tem sido um Mundial marcado pela eficácia defensiva e pelo pragmatismo, o que, sem retirar mérito a quem optou por esse modelo de jogo, me leva a pensar que esta competição já não tem o brilho de outrora. A competição, ou o futebol...
Acredito que o vencedor do mundial sairá do confronto entre a Alemanha e a Espanha, mas como, até agora, não acertei uma, até pode ser que não e ainda estejam para acontecer mais surpresas, embora a Holanda tenha futebol para vencer a Alemanha.
Enfim, se é verdade que este Mundial evidenciou a superioridade das equipas europeias, não é menos verdade, que me perdoem os adeptos da táctica, que a competição perdeu toda a sua magia...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


O "cartoon" de Luís Lopes, publicado na revista Sábado, que acima reproduzo, é bem ilustrativo da velha percepção de que dando futebol ao povo, ele se esqueceria da política.
Tal como Karl Marx proclamava a religião como sendo "o ópio do povo", existe a ideia, em boa parte dos nossos políticos, de que "a malta quer é bola" e em lha dando, tudo o resto passará para segundo plano.
Terá sido assim, nos tempos do Estado Novo, quando o povo era obrigado a engolir a doutrina oficial, sem hipótese de escolha, com os mais ousados, em matéria de defesa da democracia, a terem garantido um visitador da PIDE e uma visita guiada aos calabouços, com direito a estadia, em regime de pensão completa.
Nos tempos que correm, democracia é coisa de que não nos podemos queixar, existindo, até, situações em que se poderia dizer que é tanta a democracia, que se corre o risco de que vire bagunça, como se tem visto em muitas das nossas escolas. Mas adiante...
Felizmente que, nos nossos dias, existe total liberdade de expressão e livre acesso à informação, com canais televisivos, jornais e revistas para todos os gostos, já para não falar da Internet, que nos proporciona escolhas intermináveis.
Mas se, para efeitos desta análise, reduzirmos a amostra e nos cingirmos ás escolhas televisivas, em canal aberto, é verdade que, durante o mês de Junho, o futebol teve lugar de destaque, o que não pode ser surpreendente, atendendo a que se trata da fase final de um campeonato do mundo, do desporto mais popular ao cimo da Terra, que ainda por cima contava com a participação da selecção portuguesa, coisa pouco frequente na história da competição.
Deu-se, é um facto, na comunicação social, mais relevância ao futebol, em detrimento da política, ou, direi eu, sabendo que estou a ser politicamente incorrecto, da politiquice.
Só que, contrariamente ao que sucedia durante o Estado Novo, não faltou em Portugal debate político, assim como não faltou, felizmente, futebol, tendo sido dada a possibilidade, a quem se interessa pelos dois temas, de escolher entre assistir à controvérsia sobre a cobrança de portagens nas SCUT ou a jogos de futebol entre selecções que integram os melhores praticantes do Mundo.
No que me respeita, a opção foi o futebol, apesar de ter um inegável interesse pela política, até porque a política portuguesa parece, na grande maioria dos casos, reger-se por princípios futebolísticos, adoptando, com demasiada frequência, procedimentos semelhantes àqueles que podemos verificar entre os menos civilizados amantes da modalidade.
E não faço, sequer, a comparação com os apoiantes da nossa selecção, felizmente a esmagadora maioria dos portugueses, porque esses, apesar das críticas ao treinador, na hora da derrota, nunca deixam de apoiar a equipa e sabem reconhecer o mérito do adversário.
Ao contrário, o comportamento da maioria dos nossos políticos assemelha-se ao do mais ferrenho dos adeptos dos nossos principais clubes, para quem o importante é a vitória da sua equipa, independentemente do modo como é conseguida, sem demonstrar qualquer respeito pelos adversários e, muito menos, reconhecer os seus méritos e capacidades.
Infelizmente, a nossa selecção foi eliminada da competição, deixando o campo aberto ao gladiatório político, para reocupar o centro da informação e da notícia, podendo os portugueses passar a "maçar a cabeça com questões económicas, sociais e políticas", tratadas com a isenção que todos conhecemos...
E para relaxarem de tanta maçada, as televisões, em canal aberto, não deixarão de os contemplar com doses, maciças, de brilhantes telenovelas, cujo carácter educativo é, amplamente, reconhecido...
Felizmente que Julho é um mês de férias, já com algum futebol, e em Agosto regressa o campeonato!